ROUSSEAU, Jean Jacques. Discurso sobre a origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. (trecho retirado de http://www.culturabrasil.pro.br/origemdadesigualdade.htm)

 

     Quando quiséssemos supor um homem selvagem tão hábil na arte de pensar quanto no-lo fazem os nossos filósofos; quando fizéssemos dele, a seu exemplo, também um filósofo, descobrindo sozinho as mais sublimes verdades, deduzindo de raciocínios muito abstratos máximas de justiça e de razão tiradas do amor da ordem em geral, ou da vontade conhecida do seu Criador; em uma palavra, quando supuséssemos no seu espírito tanta inteligência e luzes quanto ele deve ter e de fato nele achamos de pesado e de estúpido, que utilidade tiraria a espécie de toda essa metafísica, que não poderia se comunicar e que pereceria com o indivíduo que a tivesse inventado? que progresso poderia fazer o gênero humano esparso nas florestas, entre os animais? e até que ponto poderiam aperfeiçoar-se e esclarecer-se mutuamente homens que, não tendo domicílio fixo, nem nenhuma necessidade um do outro, se encontrariam, talvez, apenas duas vezes na vida, sem se conhecerem e sem se falarem?

      Que se pense de quantas idéias somos devedores ao uso da palavra; quanto a gramática exerce e facilita as operações do espírito; e que se pense nas penas inconcebíveis e no tempo infinito que teve de custar a primeira invenção das línguas; que se juntem essas reflexões às precedentes, e então se julgará quantos milhares de séculos foram precisos para desenvolver sucessivamente no espírito humano as operações de que é capaz.

      Que me seja permitido considerar, por um instante, os embaraços da origem das línguas. Poderia contentar-me em citar ou repetir aqui as pesquisas que o sr. abade de Condillac fez sobre essa matéria, as quais confirmam plenamente o meu sentimento e talvez me tenham dado a respeito a primeira idéia. Mas, a maneira pela qual esse filósofo resolve as dificuldades que cria para si mesmo sobre a origem dos sinais instituídos, mostrando que supôs o que proponho, a saber, uma espécie de sociedade já estabelecida entre os inventores da linguagem, creio, voltando às suas reflexões, dever acrescentar as minhas, para expor as mesmas dificuldades no dia que convier ao meu tema. A primeira que se apresenta é imaginar como puderam tornar-se necessárias; porque, não tendo os homens nenhuma correspondência entre si, nem nenhuma necessidade de a ter, não se concebe nem a necessidade dessa invenção, nem a sua possibilidade, se não fosse indispensável. Direi bem, como muitos outros, que as línguas nasceram da convivência doméstica dos pais, das mães e dos filhos; mas, além disso não resolver as objeções, seria cometer o erro dos que, raciocinando sobre o estado de natureza, para aí transportam as idéias tomadas na sociedade, vêem sempre a família reunida em uma mesma habitação e as seus membros guardando entre si uma união tão íntima e tão permanente como entre nós, onde tantos interesses comuns os reúnem; ao passo que, nesse estado primitivo, não tendo casas, nem cabanas, nem propriedades de nenhuma espécie, cada qual se alojava ao acaso e muitas vezes por uma só noite; os machos e as fêmeas se uniam fortuitamente, conforme o encontro, a ocasião e o desejo, sem que a palavra fosse intérprete muito necessário das coisas que se deviam dizer: e se abandonavam com a mesma facilidade. A mãe aleitava primeiro os filhos por sua própria necessidade; depois, tendo o hábito os tornado caros, nutria-os pela necessidade deles; logo que tiveram força para procurar o próprio alimento, eles não tardaram em deixar a própria mãe; e, como não houvesse quase outro meio de se encontrarem senão o de não se perderem de vista, logo chegaram ao ponto de não se reconhecerem uns aos outros. Notai ainda que, tendo o filho todas as suas necessidades que explicar, e por conseguinte mais coisas que dizer à mãe do que a mãe ao filho, é ele que deve ter feito os maiores esforços de invenção, devendo a língua que emprega ser em grande parte sua própria obra; isso multiplica tanto as línguas quantos indivíduos há para as falar; para isso contribui ainda a vida errante e vagabunda, que não deixa a nenhum idioma o tempo de tomar consistência; porque dizer que a mãe dita ao filho as palavras das quais deverá servir-se para lhe pedir tal ou tal coisa, é o que mostra bem como se ensinam as línguas já formadas, mas não explica como se formam.

     Suponhamos vencida essa primeira dificuldade; transponhamos, por um momento, o espaço imenso que deve encontrar-se entre o puro estado de natureza e a necessidade das línguas; e procuremos, supondo-as necessárias, como puderam começar a se estabelecer. Nova dificuldade ainda pior do que a precedente: porque, se os homens tiveram necessidade da palavra para aprender a pensar, tiveram muito mais necessidade ainda de saber pensar para encontrar a arte da palavra; e, quando se compreendesse como os sons da voz foram tomados por intérpretes convencionais de nossas idéias, restaria sempre saber quais puderam ser os intérpretes mesmos dessa convenção para as idéias que, não tendo um objeto sensível, não podiam indicar-se nem pelo gesto nem pela voz; de sorte que mal podemos formar conjecturas suportáveis sobre o nascimento dessa arte de comunicar os pensamentos e estabelecer um comércio entre os espíritos; arte sublime, que já está tão longe de sua origem, mas que o filósofo vê ainda a tão prodigiosa distância de sua perfeição, que não há homem bastante ousado para assegurar que ai chegaria, quando as revoluções, que o tempo necessariamente conduz fossem suspensas em seu favor, os preconceitos saíssem das academias ou se calassem diante delas, e elas pudessem ocupar-se desse objeto espinhoso durante séculos inteiros sem interrupção.

     A primeira linguagem do homem, a linguagem mais universal, mais enérgica e a única de que teve necessidade antes que fosse preciso persuadir homens reunidos, foi o grito da natureza. Como esse grito não tivesse sido arrancado senão por uma espécie de instinto nas ocasiões prementes, para implorar socorro nos grandes perigos ou alívio nos males violentos, não era de grande uso no curso ordinário da vida, em que reinam sentimentos mais moderados. Quando as idéias dos homens começaram a se estender e a se multiplicar, e se estabeleceu entre eles uma comunicação mais estreita, procuraram sinais mais numerosos e uma linguagem mais extensa; multiplicaram as inflexões da voz e lhe juntaram os gestos, que, por natureza, são mais expressivos, dependendo menos o seu sentido de uma determinação interior. Assim, exprimiam os objetos visíveis e móveis por meio de gestos, e os que impressionam o ouvido por meio de sons imitativos: mas, como o gesto só indica os objetos presentes ou fáceis de descrever e as ações visíveis, não sendo de uso universal, de vez que a obscuridade ou a interposição de um corpo o torna inútil, e exigindo a atenção mais do que a excita, foi ele substituído pelas articulações da voz, que, sem terem a mesma relação com certas idéias, são mais próprias para representá-las todas como sinais instituídos. Essa substituição só ponde ser feita por um consenso geral e de maneira bem difícil de praticar por homens cujos órgãos grosseiros não tinham ainda nenhum exercício, e mais difícil ainda de conceber em si mesma, pois que esse acordo unânime teve de ser motivado, parecendo a palavra ter sido muito necessária para estabelecer o uso da palavra.

     Deve julgar-se que os primeiros vocábulos de que os homens fizeram uso tiveram no seu espírito uma significação muito mais extensa do que as que se empregam nas línguas já formadas, e que, ignorando a divisão do discurso em suas partes constitutivas, deram eles primeiro a cada palavra o sentido de uma proposição inteira. Quando começaram a distinguir o sujeito do atributo e o verbo do nome, o que não foi um medíocre esforço de gênio, os substantivos não passavam, a princípio, de outros tantos nomes próprios, sendo o presente do infinitivo o único tempo dos verbos; e, em relação aos adjetivos, a noção não devia ter sido desenvolvida senão muito dificilmente, porque todo adjetivo é uma palavra abstrata, e as abstrações são operações penosas e pouco naturais. Cada objeto recebeu primeiro um nome particular, sem relação com os gêneros e as espécies, que esses primeiros professores não estavam em condições de distinguir; e todos os indivíduos se apresentaram isoladamente ao seu espírito como no quadro da natureza. Se um carvalho se chamava A, outro carvalho se chamava B; porque a primeira idéia que se deduz de duas coisas é que não são a mesma; e, em geral, é preciso muito tempo para observar o que têm de comum; de sorte que, quanto mais limitados eram os conhecimentos, tanto mais extenso se tornava o dicionário. O embaraço de toda essa nomenclatura não pode ser suprimido facilmente: porque, para colocar em ordem os seres sob denominações genéricas e comuns, era preciso conhecer-lhes as propriedades e as diferenças; eram necessárias observações e definições, isto é, história natural e metafísica, muito mais do que os homens daquele tempo podiam ter.

     Aliás, as idéias gerais só podem introduzir-se na espécie com o auxílio das palavras, e o entendimento não as apreende senão por meio das proposições. É uma das razões por que os animais não poderiam formar tais idéias, nem jamais adquirir a perfectibilidade que delas depende. Quando um macaco vai, sem hesitar, de uma noz a outra, julga-se que tenha a idéia geral dessa espécie de fruta e que compare o seu arquétipo a esses dois indivíduos? Não, sem dúvida; mas, a vista de uma dessas nozes lembra à sua memória as sensações que recebeu da outra, e seus olhos, modificados de certa maneira, anunciam ao seu gosto a modificação que vai receber. Toda idéia geral é puramente intelectual; por pouco que a imaginação tome parte nela, a idéia se torna, logo particular. Procurai traçar a imagem de uma árvore em geral, e jamais o conseguireis; contra a vossa vontade, é preciso vê-la grande ou pequena, desgalhada ou copada, clara ou escura; e, se dependesse de vós não ver senão o que se acha em toda árvore, essa imagem não se pareceria mais com uma árvore. Os seres puramente abstratos se vêem do mesmo modo, ou não se concebem senão por meio do discurso. Só a definição do triângulo vos dá a verdadeira idéia: logo que o figurais em vosso espírito, é um certo triângulo e não outro, e não podeis deixar de tornar as suas linhas sensíveis ou o plano colorido. É preciso, pois, enunciar proposições, é preciso falar para ter idéias gerais: porque, logo que a imaginação para, o espírito só marcha com o auxílio do discurso. Se, pois, os primeiros inventores só puderam dar nomes às idéias que já tinham, resulta que os primeiros substantivos só poderiam ter sido nomes próprios.

     Mas quando, não posso conceber por que meios, os nossos novos gramáticos começaram a estender suas idéias e a generalizar suas palavras, a ignorância dos inventores teve de sujeitar esse método a limites muito estreitos; e como, primeiro, tinham multiplicado muito os nomes dos indivíduos, por não conhecerem os gêneros e as espécies, em seguida fizeram muito poucas espécies e gêneros, por não terem considerado os seres em todas as suas diferenças. Para levar as divisões bastante longe, eram necessárias mais experiência e luzes do que podiam ter, e mais pesquisas e trabalho do que queriam empregar. Ora, se, ainda hoje, se descobrem cada dia novas espécies que até aqui tinham escapado a todas as nossas observações, que se imagine quantas escapariam a homens que julgavam as coisas pelo primeiro aspecto. Quanto às classes primitivas e às noções mais gerais, é supérfluo acrescentar que deviam escapar-lhes também. Como, por exemplo, teriam eles imaginado ou entendido as palavras matéria, espírito, substância, modo, figura, movimento, quando até os nossos filósofos, que delas se servem há tanto tempo, custam tanto a entendê-las, e quando as idéias ligadas a essas palavras, sendo puramente metafísicas, não encontravam para elas nenhum modelo na natureza?

     Paro nesses primeiros passos e suplico aos meus juizes que suspendam aqui a leitura para considerar, sobre a invenção dos únicos substantivos físicos, isto é, sobre a parte da língua mais fácil de ser encontrada, o caminho que lhe resta percorrer para exprimir todos os pensamentos dos homens, para tomar uma forma constante, para poder ser falada em público, e influir sobre a sociedade: suplico-lhes que reflitam sobre quanto tempo e quantos conhecimentos foram necessários para encontrar os números, as palavras abstratas, os aoristos, e todos os tempos dos verbos, as partículas, a sintaxe, ligar as proposições, os raciocínios, e formar toda a lógica do discurso. Quanto a mim, horrorizado com as dificuldades que se multiplicam, e convencido da impossibilidade quase demonstrada de que as línguas tenham podido nascer e se estabelecer por meios puramente humanos, deixo a quem quiser empreendê-la a discussão deste difícil problema: o que foi mais necessário, a sociedade já ligada à instituição das línguas, ou as línguas já inventadas para o estabelecimento da sociedade.

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